Mário Mata

Mário Mata

Sobre

A escolha do titulo deste texto tornou-se óbvia ao ouvir o tema “Então ó Zé”, que integra o ultimo album de originais do Mário Mata. O refrão dessa canção reza assim:

“Então ó Zé, como é que é
andar sozinho a lutar contra o Sistema?
Fónix, é um problema ...”

Tem sido esse mesmo o lema do Mário Mata: andar sozinho a lutar contra o Sistema. O mesmo sistema que produziu tantas outras vitimas no nosso panorama musical, algumas já aqui homenageadas neste fórum. Agora, chegou a vez dele, o Mário, ter aqui o seu espaço, de pleno direito.

Mário Mata nasceu em Angola, em 1960. Tem agora, portanto, 48 anos. Passou a sua juventude no Algarve, e mais tarde assentou arraiais com a familia em Penela, Coimbra. Em 30 anos de carreira, gravou apenas 5 discos: 3 na década de 80 (quando foi descoberto), um na de 90, e outro já neste novo milénio. É muito pouco para tantos anos dedicados á musica, por paixão. Mas continuou sempre, e teimosamente, de viola ás costas, cantando em bares e pequenos espaços, com pouco mais que apenas ele e a sua musica, e sempre que possivel com o seu amigo e companheiro de palco João Maló.

A nova geração, pós ‘anos 80’, já não faz ideia de quem seja o Mário, e a geração a que ele pertence só com esforço se lembra: “Ah, sim... aquele fulano que cantava o ‘Não há nada pra ninguém’! Mas ... ele ainda canta?” . Ah, pois canta! E escreve e compõem tudo o que canta! Provavelmente canta menos do que deveria (ainda que o faça no banho, ou em pequenos bares) , e grava muito menos do que o seu talento criativo merece. Eu recordava-me do Mário Mata desses tempos idos do inicio da década de 80, quando ele foi, com apenas 20 anos de idade, um fenómeno de popularidade com o eterno “Não há nada pra ninguem”, revelado ao mundo pelo Julio Isidro no célebre programa “Febre de Sábado de manhã”, uma experiencia radiofónica que marcou uma geração. Naquela altura o Mário terá sido um fenómeno, porque foi o primeiro a fundir de forma singular a musica de cariz popular á musica pop/rock, com alguns refrões poderosos e contagiantes, em linguagem acessivel, popular, tendo conseguido a dificil façanha de cair nas graças de ambas as falanges. Depois destes anos doirados na sua vida (1981 a 1983), durante muito tempo perdi-lhe o rasto, apesar de saber que ele tinha gravado algumas coisas posteriormente, e que até participou na década de 90 no Festival da Canção, com uma canção que veio a incluir no seu album mais recente: 'Miuda Triste'.

Até que um dia, há uns anos atrás, os meus dedos, passeando pelas prateleiras de musica de uma grande superficie comercial, tropeçaram num disco que tinha na capa a foto de um rosto que me era familiar, mas já com cabelo grisalho. E nessa capa, as palavras “Mário Mata” e “Dupla face”.
Gravado em 2004, precisamente 10 anos depois do seu album anterior, este terá sido, contra tudo e contra todos, um assomo de atitude, um grito de revolta, um ferro curto espetado nesse bicho asqueroso chamado ‘Sistema’. É especialmente sobre este disco, e motivado por este disco, que este meu texto nasce, porque provávelmente existirão duas ou três duzias de pessoas neste país que conhecem este seu trabalho, e porque o mesmo é prova irrefutável de que o Mata é um corredor de longa distância, com o seu lugar, ainda que discreto, na história da nossa musica. 30 anos de carreira, num país em que ‘não há (quase) nada pra ninguém’ que tenha valor, e que não ceda á moléstia já entranhada no nosso circuito editorial musical (já para não falar de outros 'circuitos', como o social), são dignos de justa ovação.



Este disco ‘Dupla face’ surpreendeu-me extraordináriamente, pois revelou-me um musico e compositor maduro, experiente e inspirado, já a anos-luz das brincadeiras musicalmente ingénuas do inicio da carreira. Enfim, a ingenuidade não se perdeu totalmente, ainda assoma com alguma frequência, nas palavras e nos acordes, caracteristica tipica de um ‘enfant terrible’, que apesar da idade se mantem suficientemente infantil para nos surpreender com a sua irreverência. Se quiserem um termo de comparação fácil, digamos que o Mata será, talvez, a face ainda nada polida de um Jorge Palma: rude, rebelde, mas em estado puro, genuino, inadulterado. É especialmente esse misto de pureza e rudeza que lhe flui da voz, que para mim torna o actual Mário Mata tão interessante. A sonoridade áspera do seu timbre vocal, deliciosamente imperfeito e aqui e ali roçando os limites da desafinação, e a crueza do seu som sem artificios nem grandes produções, resultaram num album de charme cativante, diferente do que costumamos ouvir, e repleto de optimas canções, algumas das quais vos pretendo dar a conhecer aqui. Numa altura em que muito do que se produz na musica portuguesa é tão limpinho e técnicamente evoluido e perfeito, mas desprovido de alma, de sangue, suor ou lágrimas (até o Fado, na sua vertente modernizada, perdeu o que mais tinha de visceral), “Dupla face” é quase um regresso ás origens do boom da musica moderna em Portugal, remetendo-nos para o aconchego do som de um Rui Veloso nos seus dois primeiros albuns, ou da cumplicidade de um Palma ainda vagabundo, que se começou a perder a partir do album “O lado errado da noite”. Possivelmente o Mário Mata é mesmo o ultimo dos cantores de rua, outra espécie em vias de extinção, a juntar á dos trovadores.

Sei que ele gostaria de gravar mais discos. Sei que ele tem canções para o fazer. Mas não sei se alguma vez o fará de novo. Resta-nos esperar que sim, que seja possivel, que alguem lhe abra a porta, ou ... que lhe saia o Euromilhões, para gravar o que quiser, e sempre que quiser. Ou ... talvez não seja boa ideia, sei lá. O excessivo conforto material cria acomodação, apazigua a rebeldia, e tolhe a inspiração. Fundamental é que ele não desista, enquanto tiver forças e vontade de continuar a lutar contra o Sistema, como o Zé. E se, por sorte, encontrarem o “Dupla Face” ... comprem! É uma peça rara.

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